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quarta, 13 junho 2018 00:30

Federação Nacional dos Médicos acusa Ministério da Saúde de estar “aliado aos interesses económicos”

João Proença, presidente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM), afirmou que "os grupos económicos do setor privado estão em grande" e que "o ministério da saúde está aliado aos grupos económicos".

O presidente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM), João Proença, acusou esta terça-feira o Ministério da Saúde de estar “aliado aos interesses económicos”, depois de ter afirmado que não há investimento na Saúde por “uma questão de decisão política”.

Antes do segundo debate nacional sobre o Sistema Nacional de Saúde (SNS) e as carreiras médicas, realizado esta terça-feira pela Ordem dos Médicos, no Porto, o responsável sindical deixou várias críticas ao Ministério liderado por Adalberto Campos Fernandes, quando questionado sobre a falta de investimento na área.

“É uma questão de decisão política, não é um problema económico nem financeiro. Não estão interessados no investimento na saúde, porque desviam o dinheiro para os bancos, para outros interesses e para os próprios grupos económicos. O orçamento da saúde desde há 15 anos para cá aumentou imenso o orçamento para o setor privado. Os grupos económicos do setor privado estão em grande. O ministério da saúde está aliado aos grupos económicos”, acusou.

João Proença admitiu estar “a pensar em várias formas de luta que não vão passar por greves, porque isso só prejudica a atividade médica e assistencial”, acrescentando que vão “começar a fazer resistência a determinado tipo de coisas, como a passagem de receitas por via eletrónica” e também reuniões com comissões de utentes.

“Ao fim de um mês e meio de greves, [o Ministério] não só não iniciou as negociações, como não temos nenhum problema resolvido, nomeadamente os concursos. E se não colocarem médicos nos hospitais e centros de saúde, a assistência médica é má. Isto reflete-se nas urgências que estão cheias de gente porque os cuidados primários de saúde e as consultas nos hospitais, não respondem às pessoas”, atirou.

À entrada para o mesmo debate estavam também presentes o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, assim como a dirigente nacional do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), Helena Ramalho, que também falaram com os jornalistas. O bastonário relativizou a questão de não haver dinheiro, ao dizer que acha haver “falta de investimento ou financiamento adequado ao serviço público”, que leva a situações como a da denunciada hoje, sobre a falta de um radiologista no Hospital de S. João, no Porto, durante a noite, exemplificou.

“É urgente que o Governo crie as condições concorrenciais necessárias para poder fixar os jovens em Portugal, porque se continuarmos a perder jovens da forma que temos perdido, vamos perder a capacidade de inovação e de acompanhar o desenvolvimento da nova medicina que acontece a uma velocidade muito rápida”, afirmou sobre a diferença de condições no SNS e no setor privado.

Mostrou também concordância com a desistência das greves, mas sublinhou que “não é um baixar de braços”, optando por “outras formas de demonstrar desagrado”, tais como “estabelecer regras de boas práticas, ao fazer o que siginifica uma boa relação médico-doente”, aumentando os tempos dos doentes durante as consultas, que neste momento “são ridículos”.

“Neste momento, [a relação médico-doente] está claramente afetada, não só pela pressão das administrações das unidades de saúde, mas também por aquilo que é a ditadura informática e que vai limitando escutar o doente. Temos de definir, e penso que vai ser definido no mês de julho, aquilo que são os tempos padrão das consultas médicas”, avançou.

Helena Ramalho insistiu na “celeridade dos concursos, para contrariar o êxito dos médicos que têm vindo a verificar-se nas privadas”, alertando que são precisos médicos “suficientes para trabalhar bem e em segurança” e também para “queixas recorrentes e realidades de deficiências graves dos recursos humanos”, nomeando casos da telemedicina em hospitais centrais.

“Queremos que os formados fiquem no SNS, é por isso que somos persistentes porque queremos que fiquem connosco e não se desviem para o serviço privado porque precisamos deles. São seguramente necessários, quando chegarem a ser o suficiente nós saberemos. Mas estamos longe disso”, respondeu, depois de não saber precisar quantas contratações seriam necessárias.

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FONTE - Observador

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