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quarta, 14 fevereiro 2018 17:03

Doente com queimaduras graves andou várias horas a circular entre hospitais

Entidade Reguladora da Saúde conclui que unidade do litoral alentejano pôs em risco um doente queimado ao enviá-lo para um hospital sem unidade de queimados numa ambulância dos bombeiros.

Um doente com queimaduras graves foi enviado do centro de saúde de Alcácer do Sal para o Centro Hospitalar de Setúbal (CHS) sem acompanhamento médico ou de enfermagem, antes de ser transportado para um hospital com unidade de queimados para poder receber tratamento adequado. Andou várias horas a circular entre unidades de saúde até acabar por ser finalmente internado em Coimbra.

O caso aconteceu em Maio do ano passado e mereceu agora uma repreensão da Entidade Reguladora da Saúde (ERS) à Unidade Local de Saúde Litoral Alentejano (ULSLA, em que está integrado o centro de saúde). Numa deliberação esta quarta-feira divulgada, o regulador concluiu que a unidade alentejana pôs o doente queimado em risco, ao optar por o transferir sem acompanhamento de profissionais de saúde, e sem ter a garantia de que ele teria vaga no hospital de destino. A ERS emitiu uma instrução à ULSLA para que mude os seus procedimentos de forma a evitar situações idênticas no futuro.

Chegou no carro de um amigo

Foi em Maio de 2017 que um homem de 45 anos com queimaduras de segundo e terceiro grau na face chegou, pelos seus próprios meios e na viatura de um amigo, ao centro de saúde de Alcácer do Sal para ser tratado. Aí, a direcção do centro de saúde (onde funciona um serviço de urgência básica), depois de ter telefonado para os hospitais de S. José e de Santa Maria (em Lisboa) e de ambos responderem que não tinham vaga para acolher o doente, optou por enviá-lo numa ambulância dos bombeiros para o hospital de Setúbal.

Só em Setúbal é que o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) foi contactado pela primeira vez. Com queimaduras de segundo e terceiro grau, de acordo com o relato dos médicos do hospital de Setúbal, o homem foi ali sedado e entubado e acabou, várias horas mais tarde, por ser transportado de helicóptero do INEM para o Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC), que tinha vaga na unidade de queimados.

“No espaço de tempo de cinco horas e com diagnóstico de queimaduras da face, cabeça e pescoço, o utente foi sujeito a uma transferência da ULSLA para o CHS e daí para o CHUC onde, finalmente, veio a ser admitido na Unidade de Queimados”, descreve a ERS.

Face a este périplo do doente, além do tempo que andou a circular entre unidades de saúde, o regulador questiona o facto de o transporte ter sido realizado "sem acompanhamento médico e/ou de enfermagem, sem interlocutores definidos no estabelecimento de origem e de destino e sem qualquer garantia de aceitação do utente pelo hospital de destino".

E conclui que "o transporte do doente para o Hospital de Setúbal, em ambulância não medicalizada e sem acompanhamento especializado, colocou o doente em risco, uma vez que não foram [...] salvaguardadas as condições básicas de segurança" para o seu transporte. Mais: a ULSLA fez “tábua rasa das regras de referenciação de doentes adultos queimados graves”.

Apesar de admitir que falhou ao não ter avisado o hospital de Setúbal que ia enviar o doente, a ULSLA alegou que a decisão de não contactar de imediato o CODU se fica a dever ao facto deste, “ao contrário do que devia acontecer, não orienta doentes urgentes, na obtenção de vaga nas unidades de saúde".

“Não raras vezes", argumenta, " os médicos são informados de que deverão tentar conseguir vagas para os doentes" nas unidades de saúde. “Este tipo de procedimento é que contende efectivamente com o direito de acesso, colocando os profissionais em situações de objectiva impotência perante a resposta frequente de ´não temos vaga`”. “São incontáveis as horas que os médicos passam ao telefone para conseguirem vagas para doentes que não podem tratar.", lamenta.

FONTE - Público

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