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sábado, 13 janeiro 2018 05:16

Serviço Nacional de Saúde: o longo braço do trabalho

Não há situações mais particulares, mais diferenciadas, verdadeiramente sempre únicas, do que as que têm a ver com a saúde de cada pessoa.

“O trabalho tem um braço longo” é uma metáfora da área da psicologia do trabalho (por exemplo, com Yves Clot) que releva a indissociável ligação, para o bem e para o mal, entre condições de trabalho e condições de vida das pessoas que o realizam.

Vem aqui a propósito do debate que está por aí aceso sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e, especificamente, sobre a relação entre a sua organização, meios e funcionamento, as condições de trabalho dos profissionais de saúde e as condições de tratamento dos utentes.

Neste domínio, esta metáfora, para além dessa ligação confinada à relação (mais óbvia) entre as condições de trabalho e as condições de vida de cada trabalhador em si, é especialmente pertinente para, com base nela, salientar também a ligação (já, infelizmente, menos reconhecida) entre as condições de trabalho de cada um e o resultado desse trabalho. E, por este resultado, mais “alongadamente” ainda, a relação (ainda menos reconhecida) com as condições de trabalho e de vida (literalmente, mesmo...) dos outros.

A relação entre as condições de trabalho de cada um e o resultado desse trabalho “salta aos olhos” em qualquer profissão, seja ela qual for. Quando se “mexe” (por acção ou omissão) nas condições de trabalho, “mexe-se” na produção (de bens ou serviços). E vice-versa.

Por exemplo, numa profissão mais elementar (o que não quer dizer menos digna ou importante), na de trolha. Qual é a qualidade (e a produtividade) do trabalho de um trolha, trabalhando ele em cima de um andaime a 30 metros de altura a revestir a parede exterior de um edifício em construção, sem a necessária protecção (guarda-corpos) contra quedas em altura no andaime que o suporta? Nestas circunstâncias, em que é que o trabalhador pensa? Em trabalhar bem e depressa, preocupado com a produtividade e qualidade da tarefa de que está incumbido, ou em agarrar-se para não cair? Para onde é que vai a produtividade e a qualidade do revestimento da parede?

Neste exemplo, quer o objecto do trabalho (a parede do prédio), quer o objectivo deste (o revestimento da parede), quer o que determina a falta de condições de segurança (e, progressivamente, de saúde, por exemplo, lesões ou doenças músculo-esqueléticas ou, mesmo, stress acumulado pelo medo de queda) do trabalhador e, por estas, a falta de qualidade e produtividade do resultado que se pretende obter com esse trabalho (a inexistência ou insuficiência de adequados meios de protecção contra quedas em altura no andaime) é algo muito material e visível.

Mas tal já não é tão facilmente perceptível quando o “produto”, o objecto (e objectivo) desse trabalho não é a parede exterior de um prédio e o seu revestimento mas as pessoas e a sua saúde, vincando, a saúde (se não a vida) das pessoas. E é neste caso que esta íntima relação entre condições de trabalho e qualidade do resultado que esse trabalho visa, podendo ser um factor de tranquilidade e gratificação, pode também ser algo que suscita profunda preocupação.

Um dos aspectos que os profissionais de saúde mais enfatizam quanto a “más condições de trabalho” é o aumento da duração e a crescente intensificação do trabalho. Não pretende este artigo enveredar, minimamente, pelas (macro)razões (organizacionais, financeiras, políticas?) que a tal poderão estar, ou não, subjacentes. Algo a relevar, isso sim, é que os representantes dos profissionais de saúde deram especial destaque público não apenas às consequências desse aumento de duração e, sobretudo, sobreintensificação do trabalho na sua própria saúde (cansaço, esgotamento físico ou mental, burnout, etc.) mas, também, ao risco de, assim, não poderem garantir a qualidade e segurança no trabalho que lhes compete, isto é, o tratamento da doença dos utentes que procuram o SNS.

Quanto à intensificação do trabalho (de qualquer trabalho), convém, talvez, melhor reflectir equívocos muito comuns na análise e organização (e, sobretudo, “gestão”) do trabalho das pessoas, equívocos esses que podem tornar-se perversos, perigosos mesmo. Para já, o equívoco de que aumentar-se a duração do trabalho é “apenas”, com as mesmas condições, fazer-se a mesma coisa durante mais tempo.

Não é. É, desde logo, fazer-se, ainda que a mesma coisa mas com mais cansaço, com outras (menores) capacidades cognitivas, reflexivas e operacionais, é, enfim, talvez fazer-se a mesma coisa, mas com outras condições, com maior risco da própria saúde e segurança. E por via disso, dependendo da natureza do que se tem a fazer, é provavelmente fazer já outra coisa, com menos qualidade (e mesmo, provavelmente, menos produtividade).

Mas talvez mais perigoso ainda é o equívoco de que fazer-se qualquer coisa a um ritmo mais intenso, acelerar-se, é muito simplesmente fazer-se a mesma coisa mais depressa. Ora, na realidade, este equívoco, em certas circunstâncias, pode-se tornar especialmente perverso e perigoso. É que, quando se acelera (e, muito concretamente, quando se sobreintensifica o ritmo de trabalho), em regra, “queimam-se” etapas, atabalhoa-se, põe-se de lado a análise e reflexão prévia (ou até posterior) necessária a uma decisão humana e socialmente (e até, quem sabe, deontológica e criminalmente) responsabilizante.

Isto é, ao acelerar-se, altera-se o processo e, por isso, (já) não se faz exactamente a mesma coisa, faz-se outra coisa. E porque, diz o povo e bem, “depressa e bem há pouco quem”, provavelmente, faz-se já outra coisa com menos qualidade e segurança e até, talvez, objectivamente, com menos eficácia e eficiência.

Se isso vale seja para que trabalho for, muito mais vale quando se “acelera” num trabalho em que está em causa a saúde (se não a vida) dos outros. Como é caso do trabalho dos profissionais de saúde (ainda que não só, pois muitas outras profissões há em que, pela natureza dos valores humanos e sociais em causa, esta questão se torna tão ou até mais pertinente).

Mas, neste domínio, há ainda um outro risco mais perverso. O de que, ao intensificar-se o trabalho, ao acelerar-se o seu ritmo, tende-se também, se não organizacionalmente pelo menos profissionalmente (ainda que inconscientemente), a estandardizar-se, a rotinizar-se “em série” o que se faz, isto é, os procedimentos, as práticas e as relações de que a execução desse trabalho carece. Quer dizer, a avaliação (e, daí, a execução) do que se faz tende a ser cada vez mais abstracta, sem (poder) ter em conta (pela “falta de tempo” que a aceleração implica) as particularidades de cada situação a tratar.

Ora, não há situações mais particulares, mais diferenciadas (sistemicamente, no plano físico, mental, social, etc.), verdadeiramente sempre únicas, do que as que têm a ver com a saúde de cada pessoa. Sublinha-se, de cada pessoa.

Então, o risco que, mais perversamente ainda, decorre da sobreintensificação do trabalho, mormente do trabalho dos profissionais de saúde (ainda que, repete-se, não só, muitas outras profissionais em que tal também acontece), face à natureza essencialmente humana e social do objecto e objectivo do seu trabalho, é o risco da crescente desumanização objectiva desse trabalho.

Ora, se algo de elevado pode ter estado na base da criação (e, agora, da organização, meios e funcionamento) do SNS, como serviço público que é, é a humanização do Estado nas condições de trabalho dos seus trabalhadores e na resposta aos cidadãos, naquilo que neles, como pessoas que são, é mais intrinsecamente humano e humanizante, a sua saúde, a sua vida.

Quando, em 10 de Maio de 1944, a Organização Internacional do Trabalho, pela Declaração de Filadélfia, integrou na sua Constituição como primeiro princípio (que continua em vigor) o de que “o trabalho não é uma mercadoria”, o que de mais importante projectou como referência para todo o mundo da sua missão e acção foi o de que o trabalho se consubstancia nas pessoas que trabalham e, daí, que o trabalho é essencialmente humano e não mercantil, muito menos algo abstracto, enfim, algo de algum modo desumano, desumanizado ou desumanizante.

Isso vale de um ponto de vista da concepção e reconhecimento do trabalho de cada pessoa relativamente a esta própria.

Mas vale também quando se reconhece (e praticamente sempre, mais ou menos acentuadamente, mais ou menos directamente, mais ou menos percebidamente, há que o reconhecer) que o trabalho de cada um se repercute sempre no trabalho, na saúde, enfim, na vida (no sentido amplo e, mesmo, no sentido literal) dos outros.

Porque, e lá voltamos à metáfora, para o bem e para o mal, “o trabalho tem um braço longo”.

FONTE - Público

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