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segunda, 09 março 2015 13:32

Diretores de Serviço e a visão "eucaliptica" da Saúde

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Já trabalhei num serviço em que o Director vinha todos os dias ao gabinete de Enfermagem e cumprimentava os presentes. Significa, portanto, que pelo menos, sabia o nome das pessoas com quem trabalhava.

Todos os anos, havia um jantar de Natal do serviço para todos os funcionários que lá exerciam funções. Invariavelmente, a discussão sobre este tema leva-nos à pergunta: quem melhor “dirige” um determinado serviço? Será um enfermeiro, um médico, ou outro profissional? Acho que pode ser qualquer uma das três opções ou nenhuma delas. Eu explico melhor: as grandes linhas estratégicas dos serviços de saúde são definidas ao nível do Conselho de Administração de uma instituição, ou, num sentido mais abrangente, no Ministério da Saúde (sector público) e no Conselho Superior (por exemplo, de um grupo económico privado que opere nesta área).

Significa que um Director de Serviço não tem de ter um MBA para fazer uma boa gestão da “sua” equipa (embora se o tiver, não esteja a incorrer em nenhum crime). O cargo de Director de Serviço, nos moldes em que actualmente os conhecemos, simboliza o poder que uma profissão conquistou dentro das instituições de saúde. Há até quem diga que só pelo facto de alguém ser nomeado para Director de Serviço, tem direito ao epíteto “Professor”… Não sei se há alguma lei/regra que determine tal coisa, mas se existe, parece-me descabida.

Seria pouco razoável da minha parte se não reconhecesse o trabalho, o empenho e a dedicação de muitos Directores de Serviço do nosso país (muitos deles com Doutoramento e um notável percurso académico). Foi graças ao seu trabalho (e das “suas” equipas) que se conseguiram grandes avanços nos padrões de saúde dos portugueses. Pese embora um conjunto significativo de vantagens resultantes deste modelo, não podemos ficar indiferentes a um conjunto de vicissitudes de pendor menos positivo.

Antes que se ponham a pensar coisas, aviso já, que para mim é claro que os médicos devem ter uma hierarquia própria dentro das instituições de saúde. Não podemos é aceitar que outras profissões não tenham igual direito, ou que esse direito aplicado a uma profissão, condicione a autonomia/importância de outras profissões. Vejamos alguns casos: no sector privado (e mesmo no sector público), a palavra “Director” já foi substituída, em certos serviços, por “Responsável” ou” Coordenador”, o que traduz uma agilização de hierarquias. Imaginemos um serviço de internamento de especialidades cirúrgicas – quem deve ser o Director de Serviço (Qual a especialidade? Deve seguir-se um modelo rotativo bi-anual?)? Imaginemos um serviço onde há 2 ou mais médicos com Doutoramento (havendo até uma rivalidade entre ambos) – quem é a pessoa mais indicada para ocupar o cargo de Director? Imaginemos a difícil tarefa de um Director do Serviço de Urgências para conhecer a “sua” equipa, em virtude da existência dos médicos tarefeiros (empreendedorismo desvairado). É impressão minha, ou poucos foram os Directores de Serviços de Urgência que deram a cara aquando das recentes enchentes nesses serviços? Perdoem-me a imparcialidade, mas há problemas nos hospitais e centros de saúde, divulgados todos os dias na comunicação social, sendo que a origem dos mesmos tem mais a ver com outras profissões e não tanto com a profissão médica. Não faz sentido esta visão “eucalíptica” da saúde... E no caso de um bloco operatório: qual das especialidades médicas (cirúrgicas) é a mais indicada para a função de Direcção? No limite, podemos ter o Director do bloco operatório a “mandar” num cirurgião, que é Director de outro serviço… Parece-me, também, haver uma sobreposição, pelo menos em parte, entre a função do Director de Serviço e Chefe de Serviço.

Há casos de serviços em que só existem dois médicos, sendo um deles o Director. Não estou a sugerir que não deva existir um Director de serviço nos hospitais pequenos. Digo é que há diferenças muito significativas entre ser Director de Serviço na Neurocirurgia num hospital do interior ou no Hospital de S. João no Porto, o que tem óbvias implicações na eficiência desses serviços. Como utente do SNS, não posso deixar de criticar os profissionais de saúde (incluindo os enfermeiros): há muita energia gasta em jogos de poder, e isso é nefasto para a relação entre profissionais, tendo um impacto importante (negativo) na quantidade e qualidade do serviço prestado à população. Não podemos aceitar que num país onde há falta de médicos de família, todos os anos fiquem por preencher vagas nesta especialidade, e os Directores desses serviços fiquem em silêncio. O mesmo se aplica aos Directores que vêem os médicos recém formados nos seus serviços rumarem ao sector privado a “custo zero”, no dia seguinte a terem concluído a especialidade.

O que nós precisamos é que cada profissão da área da saúde se sinta respeitada pelos seus pares e pelos cidadãos. Que tenha voz activa no dia-a-dia das organizações e que as suas hierarquias sejam mais maleáveis, assertivas, transparentes e justas. O actual momento económico que vivemos tem implicações severas no dia-a-dia de todos nós, mas isso não significa que tenhamos de aguentar com tudo. Há um limiar mínimo que nos está garantido (ou devia), seja enquanto cidadãos, seja enquanto profissionais de saúde.

Faz falta mais diálogo dentro das equipas (não apenas entre enfermeiros e médicos). Como será uma conversa entre uma Enfermeira Directora e uma Directora Clínica? Ou entre um Enfermeiro Chefe e um Director de Serviço? E já agora, entre estes e os representantes de outras profissões? A propósito dos pedidos de demissão de Directores e Chefes de serviço que têm sido noticiadas, vale a pena recordar partes da intervenção de Marta Temido no último Prós e Contras em que participou (http://www.rtp.pt/play/p1772/e182916/Pros-e-Contras/408323): “médicos que são a mais ou a menos, mas que nós ainda não sabemos porque não rendem da forma que gostaríamos” (44:05); “a capacidade das administrações hospitalares se fazerem ouvir junto do poder não é a mesma; demitem-se todos e quem quiser que negoceie comigo; outras administrações não podem fazer o mesmo; não têm peso político” (45:30);

Alguém devia perguntar ao enfermeiro chefe de um bloco operatório (e ao Director de serviço) porque se pagam SIGIC em Portugal a enfermeiros, quando há tantos jovens a emigrar e no desemprego? Perguntem-lhes também porque é tão diferente o tempo de uma colecistectomia no sector público e de igual procedimento no sector privado?

Ler 4986 vezes Modificado em segunda, 09 março 2015 13:46
Ricardo Silva

Licenciado em Enfermagem


Exerce no Bloco Operatório de Urgência