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sábado, 31 maio 2014 15:12

Quando os enfermeiros são simpáticos

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“Que bom, o utente achou que fomos simpáticos e amistosos! Tenho o dia ganho!” – é isto que se passa, consciente ou inconscientemente no cérebro de alguns enfermeiros.

“A Sra. Enfermeira foi muito simpática”. Esta é, frequentemente, a frase que descreve a avaliação global dos utentes sobre os cuidados de Enfermagem que receberam, aquando da alta hospitalar. “Vocês são todos muito simpáticos” ou “Foram uns queridos com a minha mãe/pai” são outras variantes conhecidas. Para o profissional que as ouve, é motivo de orgulho e do despoletar uma alegria desmesurada, como contraponto às condições degradantes do exercício profissional.

“Que bom, o utente achou que fomos simpáticos e amistosos! Tenho o dia ganho!” – é isto que se passa, consciente ou inconscientemente no cérebro de alguns enfermeiros. E não é mau, este é um sinal de que o indicador de satisfação do utente foi cumprido e que é, quase sempre atingido. Até aqui, tudo bem.

Felizmente, a maioria dos enfermeiros é simpática e amistosa. Felizmente, a maioria dos utentes está satisfeito ou muito satisfeito com os cuidados de Enfermagem. Felizmente, exprimem-no e agradecem. O grande perigo, esse sim, é o de o utente considerar que a coisa mais importante que o enfermeiro fez foi ser simpático e, consequentemente, defini-lo como tal. Sim, quando a maioria dos utentes define os enfermeiros apenas como sendo “simpáticos”, “queridos”, “extraordinários” ou “impecáveis”, fico sempre na dúvida se só retiveram isso e porquê.

Os enfermeiros fazem a apologia da relação humana, do apoio, da escuta, mas será que a sua atuação se esgota por aí? Será que valorizar apenas estas competências não fará com que o enfermeiro as exerça e só dê essa vertente a conhecer, sendo depois classificado pelos utentes como tal? Há uns tempos atrás vi a apresentação de um trabalho de investigação, em que se procurou conhecer a percepção dos utentes sobre as competências dos enfermeiros: como resultado, os primeiros apenas identificaram competências técnicas e de relação. Arrepiei-me. Onde fica o CONHECIMENTO no meio de tudo isto? Mas depois lembrei-me do que dizem as jornalistas Bernice Buresh e Suzanne Gordon: os enfermeiros identificam-se e querem ser identificados pelas competências relacionais, porque já sabem que os utentes gostam dessa vertente e os elogiam por isso. Dessa forma, é muito mais fácil eu continuar a exercer um trabalho que prime por um conjunto de competências que já sei que os utentes gostam, do que me “aventurar” a exercer outro tipo de competências, com as quais me posso “sair mal”.

A grande questão é que quando os enfermeiros são somente identificados pela simpatia, isso significa que os utentes não lhes observaram competência, responsabilidade e conhecimento. Mesmo que o tivessem feito, foi em tão escassas circunstâncias, que não foi isso que “marcou”. E se isso não marca, a imagem que a sociedade retém do enfermeiro, todos os dias, em todos os cuidados, é que este é um profissional meramente técnico, sob jugo de outros.

Dessa forma e mais que nunca, o desafio é apenas um: demonstrar o nosso conhecimento em CADA interação com os utentes. Se eu presto um cuidado, eu tenho de o acompanhar da verbalização destes três elementos: o que estou a fazer é minha função (autónoma), porque o estou a fazer e o que acontece se não o fizer. Cada interação em que eu não fizer isto, é uma OPORTUNIDADE PERDIDA de reverter este estereótipo de enfermeiro “simpático”. E você, já exerceu o seu conhecimento junto dos utentes, hoje?

Esta e outras reflexões no Livro “Se a Enfermagem Falasse…”, que podem encomendar em www.comunicarenfermagem.com

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Rodrigo Cardoso

Licenciado em Enfermagem

Mestre em Enfermagem (Área de Especialização em Supervisão Clínica)

Doutorando em Ciências de Enfermagem no ICBAS-UP

Exerce no Instituto Português de Oncologia de Coimbra

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