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sábado, 01 março 2014 04:17

Tabela de preços do Serviço Nacional de Saúde, será isto normal?

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Os enfermeiros serão especialmente afectados por isto pela ausência de dados sobre os seus cuidados e/ou tratamento dos dados sobre os seus registos o que impossibilita basear financiamento( e portanto existência de enfermeiros e acesso dos cidadãos a cuidados) com base em cuidados de enfermagem.



O Estado Português é Esquizofrénico?

 

Pela Autoridade da Concorrência:

"A fixação de preços mínimos e máximos por associações de empresas configura uma forma séria e das mais graves de restrição da concorrência, porque impede cada agente de fixar preços mais competitivos, elimina a concorrência entre profissionais pela via do preço, reforça os obstáculos à entrada de novos profissionais e priva o consumidor da possibilidade de escolha e de negociação para adquirir o serviço ao melhor preço."
Retirado de: http://www.concorrencia.pt/vPT/Noticias_Eventos/Comunicados/Paginas/Comunicado_AdC_200614.aspx

Ora se em 2008 o Estado fixou estes preços que pagaria às Instituições do SNS:

Urgência
1—O preço do episódio de urgência para os hospitais do Serviço Nacional de Saúde (apêndice) é de:
a) Hospitais centrais—E 143,50;
b) Hospitais distritais—E 106;
c) Hospitais do nível 1—E 50.

http://www.dre.pt/pdf1s/2006/06/113B00/41734267.pdf


Em 2014assiste-se a ... Uma redução de quase 22%!!!

O preço do episódio de urgência para os hospitais do SNS é de:
a) Serviço de Urgência Polivalente — 112,07€;
b) Serviço de Urgência Médico-Cirúrgica — 85,91 €;
c) Serviço de Urgência Básica — 51,00 €

http://www.sg.min-saude.pt/NR/rdonlyres/F1071041-A28D-4B06-8CB5-D640D1D60D80/37652/TabelasPreosSNS.pdf

Conclusão:

O Ministério da Saúde está a esmagar os preços nos hospitais do SNS... se a intenção é boa, o resultado será ? Nicolás Maduro está orgulhoso! Isto de liberalismo não tem rigorosamente nada...

O que isto faz adivinhar? Pressão para baixar salários. Rejeitar doentes. Aumento de conflitos interinstituições lutando para não terem doentes "incómodos"(perversão total dum serviço nacional de saúde e dum qualquer tipo de negócio), pior satisfação dos doentes, racionamento de cuidados não tabelados ( os de enfermagem por exemplo)... E mais dívidas para os Hospitais que vão ser incapazes de cumprir estas metas, sem gravíssimas violações da lei.

A gestão baseada na evidência (em factos) pode parecer óptima no papel, mas num sistema onde existe tanta falta de documentação e/ou não tratamento de dados, o normal será basear as decisões nos factos que se conhecem e não no que realmente se passa. O modelo de financiamento dos hospitais é um reflexo disso mesmo, não diferenciando pela maior ou menor complexidade de cuidados de enfermagem dum determinado doente. Tanto faz se é um idoso que não anda, não come sozinho, é incontinente ou tem agitação mas cujo diagnóstico é um Enfarte do Miocárdio, ou um doente de 45 anos, sem mais nenhuma limitação que as inerentes a esta doença aguda.

Os enfermeiros serão especialmente afectados por isto, pela ausência de dados sobre os seus cuidados e/ou tratamento dos dados sobre os seus registos, o que impossibilita basear o financiamento com base em cuidados de enfermagem.

E quem sofrerá ainda mais serão os Portugueses que precisem de cuidados de enfermeiros pois com ESTA gestão baseada em dados( apenas os que existem). o mais normal será dizer que não são precisos enfermeiros e, imagino filas de idosos acumulados em fezes, urina e a passar fome porque não têm enfermeiros, mas que terão acesso a vários TAC's e todas as análises possíveis. Não lhes servirá de muito mas ao menos a gestão será ética, do ponto de vista que é baseada nos dados disponíveis...

As direcções de enfermagem que não se mexam não... que em breve não terão enfermeiros para liderar... E as administrações dos Hospitais não terão enfermeiros que prestem os cuidados, que em grande parte nem ficam registados como sendo de enfermeiros.



PS: estes valores não têm nada a ver com a taxa moderadora paga pelos doentes mas por outro lado, percebe-se que a percentagem da participação (co-pagamento) do doente pode ascencer perto dos 50%.( máximo de 50 euros de taxa moderadora versus preço de episódio em urgência polivalente).

Rumo ao tendencialmente gratuito! E pior... os que ainda podem pagar ( a maioria da população portuguesa é considerada como isenta) serão ainda mais explorados.


Adenda: Algumas tabelas de preços de outros grupos da área da Saúde

- http://www.cufdescobertas.pt/ResourceLink/5214/Tabela%2bParticulares%2bHCD%2b2014.pdf

- http://www.hospitaldaluz.pt/pt/apoio-a-clientes/precos-e-pagamentos/particulares/

Comparem os preços :)

 

Ler 4711 vezes Modificado em quarta, 05 março 2014 00:46
Mauro Germano

Licenciado em Enfermagem
Frequenta Mestrado em Enfermagem Avançada na Universidade Católica Portuguesa
Exerce no Serviço de Urgência Adultos do Centro Hospitalar São João

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