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sexta, 10 janeiro 2014 10:40

Nada na Enfermagem é simples

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“Desculpe Sr enfº/ Sr. doutor, lavou as mãos?

Não se importa de ir lavar as mãos antes de tocar em mim?

Obrigada.”

 O aumento de infeções associadas a cuidados de saúde (IACS) é um problema de saúde pública que tem suscitado a necessidade de maior investimento na prevenção. De entre as precauções básicas divulgadas nas instituições de saúde, destaca-se a higienização das mãos, focada prioritariamente nas mãos dos profissionais de saúde.

Porém, no ano que agora terminou, 2013, a OMS, no âmbito do dia mundial da higiene das mãos, lançou mais uma campanha, centrada na continuidade da monitorização da higiene das mãos e apelando ao envolvimento dos doentes nesta problemática. A OMS propôs que os doentes se assegurassem das iniciativas existentes nos serviços onde pudessem ser envolvidos, e questionassem os profissionais que lhes iam prestar cuidados sobre a lavagem das mãos, perguntando por exemplo:

“Desculpe Sr enfº/ Sr. doutor, lavou as mãos?

Não se importa de ir lavar as mãos antes de tocar em mim?

Obrigada.”

Sinto que esta proposta, que tem tanto de provocante como de legítima, continuou a remeter o problema apenas para as mãos dos profissionais. De facto é importante que quem cuida dos outros o faça com cuidado e reconheço que estamos muito longe da excelência: lavar simplesmente as mãos, para alguns profissionais de saúde, ainda é uma opção. Isto reforça a necessidade de se continuar a trabalhar no problema do lado dos profissionais, mas já agora sem esquecer que, por outro lado, sobre as mãos dos doentes pouco ou nada existe.

Não está documentada a importância do papel das mãos dos doentes na cadeia de transmissão das IACS e o envolvimento do doente não vai muito além de algumas medidas informativas e do reforço do acesso a meios para a desinfeção das mãos. No entanto, a prática clínica de enfermagem - não só em hospitais, mas também em instituições de cuidados continuados, estruturas residenciais para idosos - é rica em evidências empíricas sobre as insuficiências nesta vertente dos cuidados, especificamente nas pessoas com maiores graus de dependência, com limitações físicas e cognitivas. Há uma parte significativa de doentes/residentes que, pelo grau de dependência de terceiros que apresentam para o autocuidado, simplesmente não são capazes de lavar as mãos. Nestes casos beneficiam da higiene durante o banho diário e, de um modo geral, não lhes são lavadas as mãos novamente durante o dia; são pessoas que por vezes, desorientadas ou não, tocam em grades da cama, cortinas, sistemas de soros, sondas, mesas, e outros equipamentos, assim como zonas do corpo conspurcadas, pensos de feridas infetadas, traqueostomias, drenagens, sangue, étc., transportando microrganismos de vários locais para a via respiratória, gastrintestinal, genital e urinária, para as mucosas e a pele, ou para portas de entrada criadas por procedimentos invasivos que permitem ultrapassar as barreiras naturais de proteção do corpo. Nós também tocamos nessas superfícies contaminadas e transportamos os microrganismos de uns doentes para os outros e para nós mesmos. Quando estamos a prestar cuidados e o doente se tenta apoiar em nós, podemos até sentir nojo em relação às suas mãos.

A discussão da questão de tentarmos perceber se, como enfermeiros, temos condições para desenvolver iniciativas que permitam envolver efetivamente todos os doentes (mesmo os mais dependentes) numa campanha da higiene das mãos, seria suficiente para mostrar como pode ser complicado dar resposta a um aspeto tão simples dos cuidados.  

Ler 3621 vezes Modificado em domingo, 12 janeiro 2014 23:00
Vanda Veiga

Enfermeira especialista em Enfermagem Médico Cirurgia - doente crítico

Mestre em Enfermagem e em Gestão dos Serviços de Saúde

Pós-graduada em: Gestão SS, Cuidados Paliativos, Nutrição, diabetes e metabolismo

Atividade profissional: Área clínica (serviço de urgência), docência (cuidados paliativos, ética e deontologia), investigação (área do idoso).