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terça, 15 outubro 2013 14:21

Porque se queixam tanto os enfermeiros?

Escrito por 

Eu digo-lhes que eles não estão a “ver bem a coisa” e eles chamam-me de corporativo.

 

Desfazendo mitos

Às vezes sou interpelado por amigos fora da área da Saúde e que me dizem que os Enfermeiros se estão sempre a queixar e a maioria das vezes sem razão.

Eu digo-lhes que eles não estão a “ver bem a coisa” e eles chamam-me de corporativo.

Mas perante factos… desfazem-se muitos mitos.

Ora muitos desses mitos são propalados precisamente pelo Governo que deveria administrar o Estado de maneira a que este tenha sucesso e assim servir de suporte para que o sector económico e empresarial pudesse prosperar e, não sendo suicida, não maldizer a sua própria administração, sendo o mais justo possível de acordo com a informação disponível. Ora tem sido precisamente o contrário: A máxima “Forte com os fracos e fraco com os fortes” nunca foi tão real.

No entanto, quando a Injustiça é tão crassa e não é resolvida começa-se a desconfiar seriamente da honestidade de quem nos dirige mas acima de tudo da competência para o fazer. Sabemos que os Governos têm de tomar decisões difíceis e que afectam todos mas desta forma... Não. Há sacrifícios e sacrifícios...

Porém, numa tirada paradoxal, o Governo( através do Estado: ACSS) publicou mais um balanço social do SNS (Serviço Nacional de Saúde) e que torna indefensável, para não dizer descarada, a injustiça e a discriminação de que são alvos os enfermeiros contradizendo o discurso público de rigor e seriedade. Isto significa apenas que as decisões dificeis são apenas para uns especialmente. Acham que é mania da perseguição? Veremos a seguir...

O Balanço pode ser consultado aqui, pelo que nada pode ser mais sério que isto, dado estarmos a falar duma entidade estatal séria e é com base nestes dados que se tomam decisões. Certo?: 

Então mas que mitos são esses? Deve ser mais uma vez propaganda dos enfermeiros… Ou não!

Ajudem-nos a fazer as legendas… Após cada enunciação dum mito… Os DADOS!

Nota: Nenhum dos dados foi fornecido por Entidades representativas dos Enfermeiros… São todos do Governo! As tabelas foram alteradas apenas quanto à formatação, todos os dados são os constantes no relatório acima citado.

 

Mito nº1: Os enfermeiros têm uma profissão desgastante e insalubre porque lidam com muitas pessoas doentes, em condições propícias a adoecer e a sofrer acidentes como picadas de agulhas, lombalgias de esforço, vários outros problemas osteoarticulares e exposição a químicos e produtos biológicos(sangue, secreções respiratórias, vómito, fezes, urina) nocivos , mas são de certeza recompensados por isso, aliás, outra coisa não faria sentido…

 

Parece que não… O risco, penosidade e insalubridade tem uma definição que é indecifrável ao senso-comum… só pode!

Senão vejamos as estatísticas relativas ao Absentismo relacionado com doença, acidente em serviço ou doença profissional…

Sendo os Enfermeiros o grupo profissional mais diferenciado (entre os licenciados em áreas da Saúde) a ter maior número de acidentes de trabalho, doenças profissionais e episódios de doença são os que menos recebem “subsídios relativos a penosidade, risco ou insalubridade”.

Não sei que definições atribuem lá no Ministério da Saúde a estes conceitos mas só podemos estar a falar de algum esquecimento seletivo.

As estatísticas são bem esclarecedoras... Então se adicionarmos casos de violência contra profissionais de saúde…
Isto é ou não é estranho?

Isto é ou não é estranho?

 

Mito nº 2: Os Enfermeiros trabalham em muitos sítios ao mesmo tempo (duplo e triplo emprego)

É quase um lugar comum dizer-se que os Enfermeiros trabalham em muitos locais, em muitos empregos pelo que não faz sentido o argumento de exigirem um horário de trabalho mais reduzido mas o que estes dados nos dizem é que os Enfermeiros são o grupo de profissionais de saúde que menos acumula portanto não será este indicador um bom argumento contra esta pretensão legítima, face ao risco que implicam os erros dos enfermeiros para os doentes e pelo desgaste físico e mental nos enfermeiros, de menor carga horária de trabalho( e que é uma reinvindicação dos muitos que já fazem 40 horas semanais).

 

Mito nº 3: Os enfermeiros fartam-se de fazer horas extraordinárias e com esse expediente ficam com um salário muito alto

Além de os enfermeiros terem reduzido(foi-lhes reduzido melhor dizendo) em cerca de metade, de 2010 para 2012, o número de horas “extra” realizadas, desde 2011 para 2012 tiveram a maior variação percentual entre todos os profissionais de saúde (obrigado Paulo Macedo!). Tal até seria aceitável se fossem os que mais pesassem neste tipo de indicador ou rubrica, mas não parece que assim seja.

Além disso são também os que menos horas “extra” fazem em média como podem ver no quadro abaixo.

A “coisa” percebe-se melhor quando vemos o peso total das horas extraordinárias no total de horas trabalhadas.

Daqui se percebe que algumas das grandes medidas emblemáticas deste ministério são quase um embuste no que à justiça e efectivade da sua aplicação diz respeito, cortando onde é mais fácil mas não onde causa maior impacto verdadeiro

Ou seja, as horas extraordinárias pesam muito pouco no total das horas trabalhadas dos enfermeiros e mesmo assim são os que sofrem mais cortes.

Forte com os fracos…

 

Mito nº 4: Ok… mas os suplementos que os Enfermeiros recebem (trabalho por turnos, noites, fins de semana e feriados) fazem com que o seu salário dispare… Afinal de contas trabalhar por turnos é a modalidade de horário mais dura e antinatural que existe uma vez que se alteram os ciclos naturais de repouso, implica trabalhar durante noites, feriados como Natal, Páscoa, etc etc e como tal, sendo o Estado uma entidade séria, deve compensar quem o faz… Ou para quem não considera o Estado sério... existe a outra versão de que de certeza que é um artifício para “mamar” ao trabalhar nesses dias… Bem… parece que não é bem assim…

O que estes dados nos mostram é que algo de inexplicável ou absurdo acontece… Então mas os enfermeiros são o grupo profissional que maior percentagem tem de profissionais a trabalhar por turnos, a larga distância de todos os outros, e não são o grupo com maior peso dos suplementos remuneratórios, precisamente dedicados a compensar horas penosas como noites e feriados? 20% a mais no vencimento, em troca de ter um horário que implica danos na vida social, familiar e estado de saúde? Isto há coisas que são inexplicáveis…
São os que mais horas trabalham em feriados, noites, fins-de-semana e no entanto este tipo de trabalho é recompensado de que maneira? Esqueçam lá isso de ter filhos para levar ao infantário, de ajudar o pai idoso a ir às compras ou de poder jantar em casa com a esposa ou amigos…

 

Mito nº5: Existem muitas vagas no ensino Superior para Enfermagem o que quer dizer que o Estado deve precisar deles além de que está sempre a aumentar o número de enfermeiros no SNS.

Parece é que afinal o número de enfermeiros está a diminuir sustentadamente sendo os enfermeiros o grupo profissional que maior descida percentual teve como podemos ver pelo quadro abaixo.

Poderíamos pensar que isto faz parte duma estratégia que visa diminuir profissionais com elevados salários e uma vez que os enfermeiros até tinham uma carreira que com todos os seus defeitos garantia um mínimo de possibilidade de progressão por mérito e bom desempenho em que, ao contrário doutras áreas, não consistia numa progressão automática e que configurava um número semelhante de profissionais em cada escalão remuneratório…

Mas quando perdemos um pouco de tempo a olhar para os dados vemos tão só isto:

 

87.6% dos enfermeiros estão no escalão mais baixo do vencimento inicial da carreira(nalguns casos bem abaixo), com a completa aniquilação dos escalões seguintes. 

Mesmo para quem não percebe um gráfico de barras a imagem é elucidativa…

Se decompusermos o escalão remuneratório veremos que a maioria nem sequer recebe o mínimo da carreira( que ronda os 1200 euros). Olhemos para as outras carreiras e tiremos ilações…

Mais vergonhoso se torna quando olhamos o quadro dos vencimentos mais elevados (os Sortudos)… Alguém anda a ser muito bem pago para manter Enfermeiros a ganhar abaixo do mínimo estipulado. 

Isso de todos os funcionários públicos progredirem sem qualquer critério a ter acontecido, nunca se viu isso na Carreira dos Enfermeiros.

Podemos até pensar que tal é normal… Mas se compararmos com a restante Administração pública:

Ora os enfermeiros pertencem ao grupo mais diferenciado, os licenciados, tendo mesmo assim um vencimento médio abaixo da administração pública, que tem uma percentagem de 47.1% licenciados, contra 62.4% do Ministério da saúde, sendo os enfermeiros responsáveis por mais de metade deste número.

Em suma:

O grupo profissional diferenciado mais sujeito a acidentes de trabalho e doença e o menos compensado por isso.

O grupo profissional que mais cortes teve, em termos percentuais, em relação a horas extraordinárias, no grupo que já era o que menos horas fazia em média.

O grupo profissional que mais trabalha no tipo de horário mais penoso (trabalho por turnos) e o menos compensado por isso.

O grupo profissional cuja carreira foi ao longo dos anos a que maior crivo tinha na passagem para escalões superiores e a que neste momento mais impossibilita a passagem para escalões seguintes, esmagando todos os enfermeiros na sua expectativa de melhoria do desempenho, recompensa pelo mérito e possibilidade de melhoria da sua vida.

O grupo profissional com maior percentagem de profissionais a ganhar abaixo do salário base estabelecido por lei.

O grupo profissional que mais cumpre é o mais penalizado. Isto é inequívoco após ver estes dados e não apenas um juízo de valor.

A questão que fica é... Porquê ser melhor? Porquê ser cumpridor? Nada disso interesserá!

 

Os dados são da responsabilidade do Ministério da Saúde e é este que toma decisões que se crê serem baseadas em dados. Mas se são baseadas em dados… qual o critério que tem sido usado? Expliquem-me por favor…

 

Ler 46729 vezes Modificado em terça, 15 outubro 2013 16:38
Mauro Germano

Licenciado em Enfermagem
Frequenta Mestrado em Enfermagem Avançada na Universidade Católica Portuguesa
Exerce no Serviço de Urgência Adultos do Centro Hospitalar São João

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