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quarta, 16 outubro 2013 10:00

O caminho faz-se caminhando

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Depois de ler o Balanço Social do SNS 2010-2012, não há como conter a raiva e a revolta contra uma classe política tão limitada e amiga de si própria.

E por estes dias, (quase) só quem é enfermeiro é que percebe o potencial que está a ser desperdiçado com a não rentabilização da Enfermagem em Portugal! Deitado ao lixo! Destruído! Quem olha hoje para a profissão parece não acreditar no que vê, no que ouve e nas previsões que perigosamente se transformam no presente de todos nós.

Todos os enfermeiros são unânimes num ponto: o de que é preciso mudar! É preciso transformar este descrédito e esta desconsideração pela enfermagem, em potencial de crescimento e mudança do Sistema de Saúde! Agora o que muda, como muda, para o que muda, aí já temos pontos de discordância. Quando se fala em agir, poucos dão a cara e mesmo esses parecem não se entender! Verdade seja dita que, antes de tomar uma decisão, é fundamental reflectir sobre 3 questões: Onde estamos? Onde queremos chegar? Por onde vamos? O “espaço” não permite uma reflexão extensa, mas as perguntas ajudam-nos a aprofundar a realidade e a descobrir alternativas…

 

Onde estamos?

Licenciados. Mestres. Doutores. Professores de nós próprios e de outros profissionais. Investigadores. Consultores. Geradores de inovação. Políticos. À cabeceira de todo e qualquer doente.

Ignorados. Esquecidos. Desprezados. Desmentidos. Apagados. Desmotivados. Agarrados ao poder (!). Incapazes de olhar para o “bom”, de tal é a fixação com o que está errado e tem de mudar.

Nunca fomos tão bons e, ao mesmo tempo, nunca descemos tão depressa no que ao valor profissional e dignidade diz respeito. Somos os únicos? Nem pensar! Sofremos, como Professores, Engenheiros, Advogados, Canalizadores e Agricultores sofrem todos os dias com a desvalorização do seu trabalho, em prol de ideologias de acumulação de capital e valorização da alta finança. Deixámos de controlar o trabalho que produzimos, estamos zangados, separados, confusos e em conflito interno. Têm-nos exactamente onde nos querem. Mas “não merecemos”, “portámo-nos tão bem”, “somos sempre certinhos e auditados” e caímos de cara no chão. Sentimo-nos de alguma maneira traídos, como se a namorada nos incentivasse a fazer exercício e no final o que ela queria era o instrutor do ginásio… Será que a sociedade quer enfermeiros tão bem formados? Competentes? Pensadores da acção e investigadores do conhecimento? Ou será que a sociedade até queria, mas não faz ideia que os enfermeiros são assim?

Vivemos no silêncio das nossas 4 paredes e nem esse contexto aproveitamos: os enfermeiros falham 99% das hipóteses de explicar aos utentes o fundamento por detrás das suas acções. Alguns evitam os familiares, outros esquivam-se quando aparece a câmara de televisão. Há baixa autoestima, dúvidas sobre a própria capacidade e incentivos ao auto-silenciamento e à resignação. Desligados, alheados (muitos por necessidade de auto-preservação) do mundo, revoltamo-nos contra as mudanças que já foram anunciadas há 5 meses, enervamo-nos sobre o resultado da reunião entre o sindicato e o ministério que acabámos de saber que se realizava hoje.

Mas lutamos. Lutamos por mais. Por educar utentes, prevenir complicações, salvar vidas, registar tudo em novos sistemas de informação. Reunimos indicadores, fazemos prova provada, pedimos recursos materiais justificando-os de forma exemplar. Poupamos milhões ao SNS e fazemos ver, através do nosso trabalho, que o reconhecimento dos utentes é algo que pode ser atingido e que é real. Estamos a cair, e o poço ainda vai na superfície.

 

Onde queremos chegar?

O que queremos da Enfermagem? O que queremos da nossa própria carreira profissional? Como a conjugamos com a vida pessoal? Que exemplos damos no nosso local de trabalho? Como faço para resolver alguns problemas específicos do meu local de trabalho e gerais, de toda uma profissão?
Sobretudo, quando esqueço o EU e a ENFERMAGEM, e começo a falar dos UTENTES? Não numa de abnegação, de “caridadezinha”, de escravidão assumida. Quando, quando é que eu explico aos utentes que o meu conhecimento e acção provocam aquele resultado de saúde nele? Quando é que eu expresso a minha opinião, enquanto enfermeiro, sobre o impacto das políticas nacionais e europeias no setor da saúde? Quando é que eu demonstro, por A+B, que tem de ser um Enfermeiro naquele posto, naquele lugar, a desempenhar aquela função?

No meio destas transformações todas, o que vai ser a Enfermagem e o que é que ela tem para OFERECER aos CIDADÃOS, enquanto profissão com finalidade social? O que é que eu tenho para dar, porque é que só eu posso dar, e o que é que você – utente – ganha, quando eu dou? Esta é a QUESTÃO. Antes das greves, das lutas, das revoltas, eu tenho de saber, enquanto enfermeiro, qual é a finalidade da ENFERMAGEM para os CIDADÃOS. Este é o fim do caminho. E só quando houver uma declaração comum e inequívoca de todos os órgãos profissionais sobre este assunto é que posso responder à questão seguinte.

 

Por onde vamos?

Ainda não sei, mas vamos! E vamos, dependendo da maneira como dissermos que vamos. Isto é, todos estamos preocupados com o NOSSO futuro, com o NOSSO emprego, com o MEU destino e dos MEUS filhos. Até aqui, temos tudo em comum com todos os portugueses. Só que os outros não querem saber senão DELES MESMOS, como nós, por mais que digamos que não, queremos saber da NOSSA sobrevivência e bem-estar. Podemos sobreviver, se cada vez mais soubermos falar sobre os outros!

Entendam, de uma vez por todas, que os portugueses estão fartos de ouvir falar de problemas! E nós somos mais “uns” com problemas, logo por mais que se fale deles, ninguém os escutará com atenção. E porquê, no meio de tanta “solução”, estamos a falar da “fala”, da mensagem, da comunicação? É simples: por mais assustador que possa ser, não vamos voltar a ter a profissão que tínhamos nos moldes antigos. As mudanças estão aí, e temos sido muito lentos a acompanhá-las! Vão começar as reuniões do SEP para aferir formas de luta e, se bem desconfio, vamos dar ao mesmo. Só que a realidade mudou de tal maneira, transformou-se de modo tão drástico, que só medidas proporcionais poderão ter efeito. Agora, só nos restam duas formas de restabelecer minimamente o que temos vindo a perder:

  • a greve de blocos e centros de saúde financiada por todos os outros enfermeiros OU,
  • o pedido de despedimento colectivo de, pelo menos, metade dos enfermeiros da prática.

 

Não há outras medidas com tamanha força como estas. Aliando, claro está, a necessidade premente do entendimento entre os sindicatos e a obtenção de ganhos de negociação para os associados (sim, sim, opiniões sobre isto há muitas mas tenho de terminar). Como é óbvio, muitos estarão contra nós. É por isso vital saber o que dizer, onde dizer e como dizer. Parece fácil, mas é um dos maiores desafios com que nos deparamos!

Agora, se vamos dar o salto, há outras duas coisas a fazer:

  • Saber que profissão vamos ser PARA a sociedade;
  • Comunicar eficazmente, de forma a ter o público do nosso lado (o que não tem acontecido da forma mais desejável até agora).

 

Só conhecendo de onde viemos e sabendo para onde queremos ir, nos podemos libertar destes métodos de luta “tradicionais”, desligados da realidade e ineficazes, e evoluir para uma tomada de posição inequívoca, que compreenda a definição clara do nosso papel futuro e a transmissão do mesmo à população.

 

Ler 6307 vezes Modificado em quarta, 16 outubro 2013 15:40
Rodrigo Cardoso

Licenciado em Enfermagem

Mestre em Enfermagem (Área de Especialização em Supervisão Clínica)

Doutorando em Ciências de Enfermagem no ICBAS-UP

Exerce no Instituto Português de Oncologia de Coimbra

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